quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sinestesia Etilica

Derradeira noite que se faz de muda
Cama fria, gelada, obtusa
Bordeaux, velas, cigarros e vultos
E o corpo entregue ao quarto, desnudo

Vazio que nao se busca
Olhos que assombram o espelho
Sorriso que nao quer sair de dentro
Falso
Tanta vida,
e a mesma vontade de permanecer reclusa

Mergulhada em si
Afoga-se em incongruencias projetadas
A fim de nao redescobrir a unica e velha questao
Fuga sempre perdoavel
Sentimento que nao ha maneira de ser palpavel
Chafurdar nela propria
Ocasionando um bel e confortavel estrago

Nao tem que se limpar das lamurias
Nem de se absolver das quase-angustias
A unica tentativa plausivel de se embriagar com venenos verbais
é estremecer as bases, resultando em quedas livres

                                                                                  Estreitando em minusculas.  





    

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Vago Vulto II

                As vezes eu tenho vontade de ir embora de mim
                Pra um lugar onde eu nao me conheça


                                                         So para ver se encontro 
                                                         Uma maneira onde o tudo 
                                                         Como um todo 
                                                                                 desapareça. 








                                                                        

sábado, 20 de novembro de 2010

Agua de beber

Postando com medo, quase um mes depois de ter sido escrito.
E aviso que esta péssimo.


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Pois sim, 23 de outubro de mais um ano.
Do segundo, mais precisamente.
Nao sei ao certo o fatidico dia , mas decidi que hoje tiraria o resto das horas para relembrar
os bons dias que se antecederam até o tilintar do sino da meia-noite.
Ainda falta muito, sao 2:14 da madrugada. O sabado so esta começando.
 Vou me abster de citar teu nome, que ecooa na minha cabeça pensante, e me toma pelo menos
uma duzia de minutos diariamente.
Mas, nao me poupo de usar teus detalhes que tem moradia eterna em minha memoria.
Pronunciarei sobre teus cilios, que me faziam cocegas em torridas tardes de domingo, ao som
do toca-fitas que ja nem existe mais, ao menos aos nossos olhos.
E também de tuas pintinhas, que eu contava depois de te desnudar.
Teus pelos que ja estiveram colados aos meus com aquele cheiro que so era sentido pelas nossas vias ofegantes.
Lembrarei de tuas palidas maos me tateando como quem explora um novo caminho, recém-descoberto,
implorando pela merecida demarcaçao, de posse.
Posse concedida, posse destinada.
Nao teria como negar algo que ja o pertencia, sobretudo exercitando mesmo sem saber
o desapego postumamente consolidado.
Dos joelhos ralados também por motivos estranhos, procurando desesperadamente
o feiche do meu brinco de madreperola, de origem duvidosa.
Das vezes que tua boca socorria à minha, num intuito de calarmos aquele silencio, do tipo que é tao
mudo que se chegava a ouvir barulhos estrondosos.
A maneira em que tuas pernas confusas imobilizavam as minhas,
para que estas nao andassem sozinhas e mais atordoadas ainda, sem as tuas.
O jeito que so voce sabia pedir para eu pousar minhas maos docemente aflitas sobre teus cabelos negros,
ansiosos pelo meu cafuné.
Do teu nariz que percorria e sabia identificar cada fragrancia que meu corpo exalava por estar junto ao
teu.
E os teus braços longos que me acolhia nas noites que eu acordava esbaforida de um sonho ruim ou de
qualquer outra insegurança que eu pudesse sentir.
A barba por fazer que eu me fazia arranhar quando grudava meu rosto ao teu, pelas manhas de tantas
e tantas semanas.
Das tuas costas largas que eu me apoiava para ler um trecho de "Morangos Mofados", que voce me deu
de presente, sem fazer a dedicatoria que eu insistia que voce fizesse.
Daquele teu particular movimento repetitivo e incansavel, ora pra frente, ora pra tras.
E os teus erros de portugues nas cartas que me escreveu
das quais levarei comigo junto com todos os meus outros dias que virao.
Dos dialogos noturnos e por vezes, etilicos
sobre nossas eternas divagaçoes sobre "o mundo enquanto ser humano, à nivel de pessoa".
Dos teus pés que estiveram pertinho dos meus e que agora caminham em outra direçao.

Me pergunto se um dia estes mesmos pés se encontrarao, para poder partilhar de uma mesma trilha.
Ainda que esta trilha se bifurque novamente.


Por vezes, sinto teu lacrimejar brotando dos meus olhos caidos, que tanto velou tuas noites dormidas.


. . .


Nem sei se deveria estar pensando e registrando tais facetas.
Embora isso me faça sentir alguns instantes de falso alivio.

Soa brega, eu sei.
Mas é algo que precisava ser dito e compartilhado.
Nao sei como concluir escritos assim.
Talvez seja porque "subconsciente" eu esteja aguardando um sinal qualquer...




sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Yeux larmoyants

Eu.
Um paradoxo entre minha razao e minhas circustancias.
Quisera ter dito o que deveria ter sido dito mesmo naquela ocasiao.
Mas, nao.
Era melhor estrangular as proprias palavras e soltar um "Voce que sabe".
Soava mais arbitrario, dando a ideia de que deixei uma escolha.
Ele, ressabiado pela minha falsa complacencia, quis ir embora.
Porém, dessa vez suas pernas o traiu.
O olhar de quem quer fuzilar estava abarrancado em meu decote, que o engolia.
Depois de tantas frases incertas, ja nao sabia se era certo se poderia mergulhar outras coisas além de seus olhos por ali.
Nem me importei por mais uma noite sem companhia.
Virei-me, como aquela que nao esta se incomodando com uma situaçao constragendora e decisiva.
Mas senti uma mao em meu braço e uma voz quase falhada dizendo "restez ici, s'il vous plaît".
E so pelo s'il vous plaît, fiquei.
Isso de poder dizer que era como um favor mesmo, me instigou.
Marejado, aquele par de olhos esfomeados me suplicavam uma explicaçao pela minha cafagestagem.
Embora os mesmos ja soubessem que nao teria nenhuma plausivel.
Foi o que foi e pronto.
Ja estava feito.
O fato do meu nao arrependimento era o que o machucava.
Mas estava bem claro, desde o inicio.
"Das cadelas que nao tem dono, que nao obedecem."
Frase de praxe, pra quem eu sentia de primeiro contato que nao me doaria por inteiro.
Tenho dessas coisas, de saber se vou ser de alguém ou nao.
Ele pensava que eu poderia estar enganada.
Mas como alguém além de mim poderia saber que portaria meus sentimentos?
Engano o meu.
Reparei naqueles labios estremecidos e na tremedeira das canelas que eu ja pertencia àquele ser indulgente.
Pelo menos por uns dias.
Isso de "pra sempre" era tempo demais.
Sou vulneravel, declaro.
Permiti que eu me envolvesse sem pudores e sem ruidos de vozes, por aquele instante.
"Va, me queres? entao possua-me aqui na frente dessa via publica, agora."
 De um tenro abraço, mudo, fui tomada por uma indizivel sensaçao, daquelas que voce se perde e nao quer se achar.
E depois do silencio, aquele sotaque franco-portugues cantarolando baixinho "te perdoo, por ergueres a mao, por bateres em mim, por rodar exuberante..."      
Jogou baixo, atingiu meu ponto fraco.
  Me fez ficar, presa em mim. E esse "mim" tornara-se "ele".
Junçao.
"So por uns dias", pensei relutante.

Engano o meu.
Improvavel.